O Alzheimer levou a minha vontade de sorrir. Minha vontade de viver. Levou todas as minhas boas lembranças naquela casa. Levou todas as minhas más lembranças também. Levou até a sensação, em si, de casa. O Alzheimer não levou a mim. Não levou a minha mãe ou minha tia. Ele não levou o meu pai, nem meus primos e tio. O Alzheimer levou a minha avó. E, assim, um pouco de nós também.

Foi aos poucos. Devagar. Foram-se as memórias. Lembranças. Momentos. Ele levou a sua personalidade. Sua individualidade. Sua independência. E então, o seu eu. Ele transformou anos em dias, dias em horas e horas em nada. E, Deus, como eu o odeio por isso. O Alzheimer levou tanta coisa que, de certo modo, todos nós, que amamos ela, nos autodiagnosticamos com um pouco dele. Afinal, parte de nós foi levada também.

Apesar desse sobrenome de mau gosto ter deixado tantas mágoas, o Alzheimer nos trouxe algo chamado união. Ele nos uniu. A doença nos uniu. Nós nos unimos. Criamos laços. Nunca vi tanto amor, compaixão e afeto mútuo. O Alzheimer trouxe o verdadeiro sentido de família e, por mais triste que possa parecer, eu agradeço por isso. Eu sou grata por fazer parte de algo assim, sou grata por pertencer a essa família e, principalmente, sou grata por ser tão sortuda em ser sua neta.

Há inúmeras chances de ela não se lembrar mais de mim ou de ninguém. Há inúmeras chances de ela não estar mais aqui. Mas eu confesso que, ás vezes, eu choro baixo e peço para fazer parte de um dos seus muitos flashbacks. Confesso que eu sei que talvez o melhor para ela seja partir. E eu aceito. Aceito porque seria egoísmo demais querer prende-la a esse mundo desse jeito. Porque apesar da grande possibilidade de ela não saber mais quem eu sou, eu continuo sabendo, muito bem, quem ela é. E isso é mais que o suficiente para amá-la. Pelo o que ela é e pelo o que já foi. Agora e para sempre.

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