Então é isso, eu preciso falar de mim. Preciso. Realmente preciso. Por muito tempo, eu venho ignorando, pensando nos outros, amando os outros e esquecendo de mim por outros. Eu desapareci. Eu sumi. Quando a gente não se enxerga é fácil deixar de existir.

Hoje eu não preciso falar de Clarice, Isabela, Maria, Gregório, Diogo ou Alfonso. Desculpe o sarcasmo, mas hoje eu preciso falar é de mim. Falar sobre o quanto os grandes sonhos parecem – e estão – cada vez mais longe. Falar sobre os meus planos de viagens que sempre, por alguma razão, precisam esperar. Falar sobre o quanto eu amo me apaixonar e, ao mesmo tempo, estou descrente do amor. Falar sobre astros, culpar os signos e estrelas pelo o meu temperamento chato. Falar de animais, pessoas e sentimentos. Falar sobre a minha relutância em responder aquela mensagem daquele alguém no meu celular.

Deixe-me falar sobre mim e todos os meus grandes sonhos de me aposentar numa fazenda. Envelhecer cercada de cães. Ser uma idosa escritora. E, claro, deixe-me contar sobre a minha futura varanda, uma brincadeira antiga. Nela todas as pessoas que eu realmente me importo têm um assento exclusivo em cadeiras de ferro ou balanços, ainda não decidi. Deixe-me contar que eu perdi o medo de que os anos passem e que, com eles, passem todos os meus sonhos e expectativas. Eu perdi o medo de crescer, também. Deixe-me contar que aprendi que crescer é uma oportunidade e não uma escolha. Crescer faz bem pra alma e para o coração.

Há um tempo atrás eu perdi a habilidade de sentir sem ver, compreender sem pensar e ouvir sem falar. Por um longo período de tempo, eu gastei mais tempo brigando, esperneando, chorando. E só assim, agora, eu descobri que o imperfeito é, justamente, a perfeição. Que as coisas simplesmente acontecem, não importando o quanto eu queira que não. Que ás vezes a gente tem saudade e nem sempre das coisas certas, confesso. Que a vida é assim, difícil. E que nem sempre dá pra voltar para casa. Que um coração partido dói, mas só um amor épico entre você e você pode curá-lo.

E assim eu reaprendi a me enxergar e, então, a existir. Reaprendi a amar e, assim, a ser amada também. Reaprendi a passar mais tempo vivendo do que esperando. Mais tempo ouvindo do que falando. Mais tempo aprendendo do que julgando. Afinal, a vida é feita de momentos, cada momento, uma passagem para o fim.

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